[Em parceria com
Bárbara Lemos]
Ela queria fazer alguma coisa diferente. Eu também. Quem deu a idéia de ir à praia à noite, conversar e esperar o dia amanhecer foi ela. A tequila foi idéia minha. Quando estivesse perto de sua casa, telefonaria, esperaria lá em frente, atravessaríamos a rua e já estaríamos na praia. Morar à beira-mar de Boa Viagem, coisa boa, não?
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Não nego que tive segundas intenções quando o convidei, mas precisava desesperadamente sair de casa, beber, fazer algo diferente. Olhei o relógio. Estava em cima da hora e eu não conseguia decidir o que usar ou levar. Ele ligou. Peguei rápido o primeiro vestido que vi e o violão. Desci correndo, detesto fazer as pessoas esperarem por mim. Cheguei meio sem fôlego e só consegui rir quando o avistei. Devo ter causado alguma má impressão, não sei. Decidi apenas segui-lo até a areia sem falar nada. Certas coisas me deixam desconcertada.
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Mulheres! Ela deve ter passado um longo tempo pensando no que vestir, ou coisa assim. Chegou ofegante até mim, sorriu - como eu gostava daquele sorriso! -, estava com um vestido que eu adorava vê-la usando, trazia consigo o violão. Chegamos até a areia em silêncio, fomos molhar os pés no mar. Ela estava tão bonita, cabelos soltos... Aquilo me fazia sentir umas coisas que eu não sabia explicar...
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Fomos até o mar molhar os pés. Ele me olhava diferente e eu senti meu rosto corar. Peguei um pouco de água com as mãos e joguei em cima dele, tentando descontrair. Comecei a rir, roubei a tequila e sai correndo. Às vezes, me sinto tão infantil. Fiquei mais aliviada quando ele me seguiu rindo e me abraçou, tomando a garrafa das minhas mãos e sentando.
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Jogou água do mar em mim com as mãos, roubou-me a garrafa e saiu correndo, uma criança. Linda criança. Ainda bem que ela havia feito aquilo, não queria deixá-la sem graça caso ela percebesse meus olhares daquele jeito diferente, mas eu não podia evitar. Corri atrás dela, só queria um pretexto para abraçá-la e sentir seu cheiro bom. Tomei de volta a garrafa, sentei-me, ela sentou-se ao meu lado, perto o suficiente para eu continuar sentindo seu perfume. E vieram as primeiras palavras da noite, as primeiras notas de violão... e as primeiras doses da tequila...
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Começamos a beber e o papo fluiu. Conversamos sobre tudo com a maior naturalidade, até o álcool fazer efeito e certas bobeiras saírem dos meus lábios. Fui baixando o rosto, olhando o violão caído na areia à medida em que o assunto ia ficando cada vez mais íntimo. Normalmente não me sinto tão constrangida em falar sobre esse tipo de coisa e ainda não consigo entender o porquê dessa timidez boba. Soltava algumas risadas nervosas e gesticulava muito, decidi beber mais para me manter quieta.
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Não suportei não tentar beijá-la.
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Um silêncio repentino se instalou e me fez olhar o céu, à procura da lua. Senti a mão dele tocar-me a nuca e o olhei. Nossos rostos estavam tão próximos que podia sentir o calor da sua respiração. Recuei quando senti os seus lábios tocarem os meus. Sorri e recebi um beijo delicioso.
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E surgiram mãos, línguas, pernas, seios... Ali na areia, ninguém por perto, amando-nos feito dois pagãos. Esqueci do tempo e de qualquer outra coisa, éramos só nós dois.
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Nada mais fazia sentido. Em poucos minutos estávamos ofegantes, suados, cansados. Uma urgência louca havia tomado conta dos nossos corpos. Ficamos assim, nus, deitados na areia, olhando o sol começar a nascer com um sorriso de satisfação desenhado nos lábios.
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Tudo parecia fazer sentido, o universo estava em harmonia. Senti-me no céu. Um anjo estava ao meu lado. E eu acabara de fazer amor com ele.
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