domingo, 27 de maio de 2007

[Por Mário Quintana]

O sumo bem só no ideal perdura...
Ah! Quanta vez a vida nos revela
Que "a saudade da amada criatura"
É bem melhor do que a presença dela...

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É, às vezes...

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Para ouvir:

terça-feira, 22 de maio de 2007

Em que Deus você acredita?

- Ei, em que Deus tu acreditas?

- Eu?! Hum... Tenho sérias dúvidas quanto a isso: não duvido da possibilidade que um Deus exista, nem da possibilidade que não haja nenhum. Não sei, simplesmente. Sou agnóstico, eu acho... Conheces a história do dragão na garagem?

- Não, como é?

- É a seguinte: eu digo que há um dragão em minha garagem. É quase certo que tu vais querer ver isso, não? Pois é, tu pedes para que te mostre. Vamos até a garagem, tu olhas, vês um velho carro, uns vasos com plantas, mas nada de dragão. Tu perguntas pelo dragão e eu aceno no ar, dizendo "ali, é que ele é invisível!". Tu sugeres espalhar farinha no chão da garagem para tornar visíveis as pegadas do dragão, eu digo que é uma boa idéia, mas lembro que o dragão flutua no ar. Tu queres usar um sensor para detectar o fogo invisível que o dragão sopra, eu digo que o fogo invisível não emite calor. Tu tens a idéia de borrifar o dragão com tinta para torná-lo visível, digo que é um dragão incorpóreo e a tinta não vai pegar. Desse jeito, oponho-me a todos os testes que tu propões, justificando o motivo de não funcionar. Qual seria, então, a diferença entre esse dragão que não vemos, não tocamos, que flutua, que cospe fogo sem calor, e um dragão que não existe? Mas vejamos, tua incapacidade de invalidar a minha hipótese não é de jeito nenhum igual a provar que ela seja verdadeira. O que peço-te é que, diante da ausência de evidências, acredites nessas minhas palavras.

Fez-se um momento de silêncio. A testa franziu-se.

- Deu para entender, né?

- ...

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Tema escolhido pela Fernanda, a culpada! Continue o meme quem quiser.

[Mais sobre "O Dragão Na Minha Garagem", procure por Carl Sagan]

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Para ouvir:



[Up The Irons!]

segunda-feira, 14 de maio de 2007

Ele, ela, praia, tequila...

[Em parceria com Bárbara Lemos]

Ela queria fazer alguma coisa diferente. Eu também. Quem deu a idéia de ir à praia à noite, conversar e esperar o dia amanhecer foi ela. A tequila foi idéia minha. Quando estivesse perto de sua casa, telefonaria, esperaria lá em frente, atravessaríamos a rua e já estaríamos na praia. Morar à beira-mar de Boa Viagem, coisa boa, não?

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Não nego que tive segundas intenções quando o convidei, mas precisava desesperadamente sair de casa, beber, fazer algo diferente. Olhei o relógio. Estava em cima da hora e eu não conseguia decidir o que usar ou levar. Ele ligou. Peguei rápido o primeiro vestido que vi e o violão. Desci correndo, detesto fazer as pessoas esperarem por mim. Cheguei meio sem fôlego e só consegui rir quando o avistei. Devo ter causado alguma má impressão, não sei. Decidi apenas segui-lo até a areia sem falar nada. Certas coisas me deixam desconcertada.

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Mulheres! Ela deve ter passado um longo tempo pensando no que vestir, ou coisa assim. Chegou ofegante até mim, sorriu - como eu gostava daquele sorriso! -, estava com um vestido que eu adorava vê-la usando, trazia consigo o violão. Chegamos até a areia em silêncio, fomos molhar os pés no mar. Ela estava tão bonita, cabelos soltos... Aquilo me fazia sentir umas coisas que eu não sabia explicar...

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Fomos até o mar molhar os pés. Ele me olhava diferente e eu senti meu rosto corar. Peguei um pouco de água com as mãos e joguei em cima dele, tentando descontrair. Comecei a rir, roubei a tequila e sai correndo. Às vezes, me sinto tão infantil. Fiquei mais aliviada quando ele me seguiu rindo e me abraçou, tomando a garrafa das minhas mãos e sentando.

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Jogou água do mar em mim com as mãos, roubou-me a garrafa e saiu correndo, uma criança. Linda criança. Ainda bem que ela havia feito aquilo, não queria deixá-la sem graça caso ela percebesse meus olhares daquele jeito diferente, mas eu não podia evitar. Corri atrás dela, só queria um pretexto para abraçá-la e sentir seu cheiro bom. Tomei de volta a garrafa, sentei-me, ela sentou-se ao meu lado, perto o suficiente para eu continuar sentindo seu perfume. E vieram as primeiras palavras da noite, as primeiras notas de violão... e as primeiras doses da tequila...

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Começamos a beber e o papo fluiu. Conversamos sobre tudo com a maior naturalidade, até o álcool fazer efeito e certas bobeiras saírem dos meus lábios. Fui baixando o rosto, olhando o violão caído na areia à medida em que o assunto ia ficando cada vez mais íntimo. Normalmente não me sinto tão constrangida em falar sobre esse tipo de coisa e ainda não consigo entender o porquê dessa timidez boba. Soltava algumas risadas nervosas e gesticulava muito, decidi beber mais para me manter quieta.

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Não suportei não tentar beijá-la.

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Um silêncio repentino se instalou e me fez olhar o céu, à procura da lua. Senti a mão dele tocar-me a nuca e o olhei. Nossos rostos estavam tão próximos que podia sentir o calor da sua respiração. Recuei quando senti os seus lábios tocarem os meus. Sorri e recebi um beijo delicioso.

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E surgiram mãos, línguas, pernas, seios... Ali na areia, ninguém por perto, amando-nos feito dois pagãos. Esqueci do tempo e de qualquer outra coisa, éramos só nós dois.

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Nada mais fazia sentido. Em poucos minutos estávamos ofegantes, suados, cansados. Uma urgência louca havia tomado conta dos nossos corpos. Ficamos assim, nus, deitados na areia, olhando o sol começar a nascer com um sorriso de satisfação desenhado nos lábios.

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Tudo parecia fazer sentido, o universo estava em harmonia. Senti-me no céu. Um anjo estava ao meu lado. E eu acabara de fazer amor com ele.

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Para ouvir:

quarta-feira, 9 de maio de 2007

Seu Zaqueu...

Todas as manhãs era seu Zaqueu o encarregado de fazer o café e o chá para os funcionários da empresa. Sempre chá de erva-doce, ou de erva-cidreira, ou de hortelã. Ele não achava aquilo muito interessante. Seu Zaqueu teve uma idéia, suspeitei de algo diferente quando percebi seu olhar levemente diabólico e o sorriso mal disfarçado no canto da boca. Veio da copa trazendo as duas garrafas térmicas, de chá e de café, colocou-as em cima da mesinha perto da entrada do departamento, sentou-se confortavelmente em uma das cadeiras em frente à mesa da secretária e assistiu o dia ser bem mais divertido, com mais cores e cheio de risos, para aqueles que tomavam o chá dos cogumelos que naquele dia ele trouxera.

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Para ouvir, da língua de Voltaire:


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sexta-feira, 4 de maio de 2007

Tic-Tac

[Por Hermes Fontes]

Este Amor que afinal, é a minha vida
E que será, talvez, a minha morte,
Amor que me acalora e me intimida,
Que me põe fraco quanto me põe forte;
Este Amor, que é um broquel e é uma ferida,
Vai decidir, por fim, a minha sorte.

Por ele, fica perto o Paraíso,
Por ele, inda mais perto fica o Inferno.
Meu coração soluça de indeciso...
[- Não morrerás, Amor, porque és eterno:
que seria de mim... sem teu sorriso?
Quem, depois do Verão, suporta o Inverno?...]

Põe-me a Dúvida dentro de um presídio
Este infeliz espírito, surpreso.
E essa Dúvida insólita divide-o
Em duas partes de igual peso...
Que ânsia!... E não é possível o suicídio!
Que ânsia!... E não é possível o desprezo!...

Suicidar-me, eu, um revolucionário,
Inimigo do velho romantismo,
e que, revendo o meu Itinerário,
não me arrependo de atos meus, nem cismo?!...
- Que pensamento louco e atrabiliário!
- Que atrabiliário e louco Tantalismo!

Novos amores, para ver se a esqueço,
Procuro, sempre que um de nós se arrufa...
- Planta a findar, da vida no começo –
longe da sua carinhosa estufa,
murcha à saudade, com que desfaleço,
e à ação da chuva, que nas folhas rufa...

A minha vida... não é minha! É dEla.
Ela somente, pois, pode tirar-ma:
E será, por matar-me, inda mais bela,
porque, um dos beijos seus tendo por arma,
numa morte de amor não se revela
um crime, nem indigna, nem alarma...

Este Amor que, afinal, é a minha vida
E que será, talvez a minha morte;
amor que me acalora e me intimida,
que me põe fraco quanto me põe forte,
este Amor... esta aurora... esta ferida,
vai decidir, em breve, a minha sorte.


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Quem, depois do Verão, suporta o Inverno?

Outros Verões ainda estão por vir...

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Para ouvir: